O “efeito denorex” que atormenta a efetividade das certificações no Brasil

November 30, 2017

Anos atrás tínhamos no Brasil uma propaganda que marcou época. Tratava-se do comercial de um Shampoo Anticaspa, cujo bordão utilizado marcou era: “Parece, mas não é”. Veja abaixo.

 

Sinceramente não sei informar se este produto ainda existe (acho que não). Fato é que este bordão muito tem a ver com um aspecto que tem sido bastante determinante na (in)efetividade de algumas certificações realizadas no Brasil.

 

Já escrevi alguns artigos que retratam os efeitos deste dilema. Relembrando...o Brasil é um dos 10 ou 12 países que mais possuem certificados ISO 9001 válidos, porém ocupamos sempre as últimas posições em diversos rankings de eficiência e somos mundialmente reconhecidos pela baixa competitividade, infelizmente. Neste sentido, olhando para os números de certificados emitidos, parecemos engajados e altamente capacitados em termos de: melhoria contínua de processos; redução de desperdícios; foco na satisfação dos clientes e etc, só que não somos de fato...

 

Vejo este dilema de uma forma muito clara: no que tange as certificações voluntárias de sistemas de gestão, estamos sempre mais preocupados em PARECER, do que em SER.

 

Em recente e importante evento do qual participei que tinha como tema as Certificações na área de Compliance, importante gerente de um dos maiores institutos deste país afirmou: Antes da publicação da ISO 37001 tínhamos algumas certificações que permanecem por aí, mas que não tinham o reconhecimento internacional da norma citada. Está aí o ponto crítico do como enxergamos as certificações de sistema de gestão. Pouco importa o modelo, o método, a capacitação de quem conduz uma certificação. O importante mesmo é saber se ela parece boa, pois a norma é boa e existe algum reconhecimento, e não se a certificação é efetiva de fato!

 

No mesmo evento, um dos presentes na plateia fez o seguinte questionamento: Considerando que para uma Certificação de Sistema de Gestão da Qualidade, é possível e factível se determinar o escopo e onde a organização deseja se certificar, como podemos avaliar este mesmo modelo para uma Certificação de Compliance, que me parece pouco efetiva se não permear toda a organização necessariamente? Excelente questionamento!

 

É óbvio que a resposta foi em consenso: É inadmissível que uma certificadora ignore os fatores de risco da organização em um processo de certificação de compliance, e concorde em certificar uma única área, um único site ou um escopo que não corresponde a totalidade de seu “Core Business” e que não permeie estes riscos. Resposta esperada e absolutamente correta, porém vamos à realidade:

 

1)     Inadmissível ou não, o modelo de certificação ISO permite SIM que haja segmentação de localização e escopo o qual a organização deseja se certificar. Este é um fato!

 

2)     Diante a mercantilização desenfreada das certificações de sistemas de gestão no Brasil, podemos realmente apostar que TODAS as certificadoras irão adotar rigidez nos processos de análise de viabilidade das certificações? Irão de fato recusar trabalho a partir de distorções identificadas? E se recusados, terão garantias de que nenhuma outra irá topar, o que comprometeria a seriedade, credibilidade e todo o mercado de certificações?

 

3)     Haverá capacitação técnica adequada dos auditores de todas as certificadoras para identificar estas distorções e repelirem situações duvidosas ou inconsistentes frente aos objetivos da certificação? Auditores que até ontem trabalhavam em auditorias de qualidade ou SMS, estarão automaticamente aptos a realizar esta análise crítica após a realização simplesmente de um curso de auditor líder na ISO 37001? Sem conhecer a interpretação da lei Brasileira? Sem conhecer o FCPA, UKBA, Diretrizes da ONU, Pró-Ética (CGU)? Sem ter noção clara de que riscos se aplicam a esta ou aquela organização postulante à certificação, pois não tem conhecimento da legislação e esta não faz parte (e nem poderia fazer) dos requisitos da (reconhecida) norma internacional de gestão de compliance, antissuborno ou anticorrupção?

 

4)     Terá o INMETRO algum mecanismo específico e estrutura para fiscalizar todo o mercado e todas as certificadoras que estão atuando em compliance, com foco neste tipo de desvio, suspendendo e cancelando certificações e acreditações concedidas?

 

Estamos definitivamente fazendo o caminho inverso.

 

Não precisaríamos nos preocupar com nenhum destes aspectos se o mercado considerasse que o SER é mais importante do que o PARECER; se estivéssemos preocupados em conhecer iniciativas genuínas e de excelência que já existem especificamente para o compliance, como o Programa de Certificação de Sistemas de Gestão Anticorrupção da BRA CERTIFICADORA (veja o vídeo abaixo), ao invés de permanecermos apostando exclusivamente no modelo que já existe há anos de certificação no Brasil; se discutíssemos e pensássemos mais sobre o processo, modelos e metodologia da certificação, e não ficássemos o tempo todo batendo na tecla de que a norma é ISO, tem qualidade e reconhecimento internacional (o que é inegável), e que isso basta. Afinal, como podemos ter os números de certificações que temos e colhermos os resultados que colhemos no Brasil, considerando que a norma é a mesma para o mundo inteiro?

 

Todo este cenário é o pano de fundo que permanece prevalecendo no nosso mercado, e que torna as certificações de sistemas de gestão O OBJETIVO FIM DAS ORGANIZAÇÕES, quando na verdade deveriam ser A CONSEQUÊNCIA NATURAL DE UMA IMPLEMENTAÇÃO EFETIVA E BEM FEITA DE UM SISTEMA DE GESTÃO. E a origem de tudo isso está no fato de que grande parte destas organizações que se certificam estão mais preocupadas EM PARECEREM CERTIFICADAS DO QUE EM SEREM CERTIFICADAS, com a conivência de muitas certificadoras.

 

 

 

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